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Mercado literário pós-pandemia

Editar livros no Brasil sempre foi difícil. Vários motivos podem ser elencados para tal constatação. Um dos principais é que no Brasil “livro não vende porque é caro e é caro porque não vende”. O mercado editorial sempre esteve nas mãos de grandes editoras, que disputam o mercado de maneira fraticida. Quando uma avança muito e não dá certo, é adquirida ou realiza fusão com outra, para sobreviver.  


São vários os critérios para dividir as editoras em grandes, médias e pequenas: faturamento, número de empregados, número de títulos publicados, etc. Preferimos adotar um critério pessoal: as grandes dominam o mercado nacional; as médias mordem ou tentam morder o grande mercado e as pequenas investem no mercado local ou regional. Quanto às livrarias, podem ser classificadas em grandes as que abrem lojas em diferentes localidades, formando uma rede de vendas; médias as que contam com matriz e poucas filiais e pequenas as que têm apenas uma loja. Grupos estrangeiros tentaram aqui estabelecer, mas a maioria desistiu e foi embora, considerando que o Brasil é muito complexo. 


Normalmente as editoras publicam considerando as especialidades: romances, livros técnicos, jurídicos, religiosos, didáticos, infantis, juvenis, ficção, interesse geral, etc. Algumas editoras crescem como conglomerados de livrarias, sufocando as pequenas editoras e livrarias. Livrarias tradicionais cerram as portas, o mesmo ocorrendo com pequenas editoras, porquanto não têm condições de concorrer no preço final do livro ao consumidor. As livrarias

físicas tendem a diminuir, ou desaparecer, ao mesmo tempo que livros digitais e audiolivros aumentarão.  


Quando as possibilidades técnicas para editar livros eram um tanto rudimentares, em relação aos atuais recursos, era extremamente difícil publicar com tiragens reduzidas. Isto porque, para tornar o livro comerciável no preço ao consumidor, exigia uma tiragem maior: 1.000, 2.000 e 3.000. Tiragem inferior a 1.000 era arriscada, pois o valor de venda era muito alto. Atualmente não é assim, visto que os recursos técnicos permitem edição de pequenas tiragens (de 50 a 100 exemplares). É possível a edição até de menos, mas o custo do exemplar fica um tanto elevado. Uma tiragem para ficar em preço acessível deve ser entre 100 e 300 exemplares. Ainda será elevado para muitas pessoas, mas será possível em havendo negociação entre o autor com pequenas e, talvez, as médias editoras. Quanto às grandes nem pensar, pois não se interessam por tiragens pequenas. As tiragens das grandes editoras superam 5.000 exemplares. É incontestável que quem souber ler, escrever e tiver uma condição financeira razoável, poderá ser autor, praticando um dos requisitos que afirma: “toda pessoa para se considerar realizada e feliz deverá ter um filho, plantar uma arvore e escrever um livro”. Mesmo quem não tiver condições financeiras de arcar com a despesas de editoração poderá fazer venda antecipada de livros para parentes e amigos, que permitam cobrir as despesas, só recebendo quando entregar o livro. A realidade é que cada vez mais fica facilitada a possibilidade de autores em potencial publicas livros. 

 


O governo sempre incentivou a cultura em relação ao custo editorial, abrandando nos impostos. Agora querem taxar a publicação para gerar receita, o que agravaria ainda mais  a situação do setor. Não é uma boa, pois o mercado de livros (Editoras, Distribuidoras e Livrarias) será impactado de forma arrasadora. A ideia foi abandonada porque a receita gerada seria pequena e os prejuízos para a cultura seriam catastróficos. Mas abandonou temporariamente, vez que as possibilidades continuam no radar. 


A informática deu um salto vertiginoso em todos segmentos sociais. No que se refere a livros o impacto foi enorme. Isso teve o mérito de ajudar democratizar a cultura. Antigamente, publicar um livro era coisa para uma pequena elite de intelectuais. Em se regredindo mais na historia, ler e escrever era para poucos. Hoje qualquer cidadão pode ser autor. O habito da leitura deve ser sempre incentivado. O ebook, ou livro digital, revolucionou o mercado. Na medida que o tempo passa, mais aumentará o número de adeptos da leitura digital, mas o livro físico não desaparecerá. Os romances, poesias e crônicas sempre existirão, e o prazer de ler folheando um livro permanecerá para sempre. 


Escrever um livro traduz uma satisfação pessoal indescritível: aumenta a autoestima; propicia maior visibilidade, prestigio e reconhecimento; enriquece o currículo; amplia na divulgação da marca individual e coletiva; constrói a autoridade no segmento que labora; ajuda sensivelmente na carreira profissional, além de outros benefícios. O que será o mundo cultural pós-pandemia ainda é uma incógnita. Mas já existem indicativos no ar.


O livro digital aumentará, notadamente nas escolas. Mesmo tipificado como crime (Código Penal, art. 184), o terror das editoras, a pirataria em forma de cópias reprográficas nas escolas, principalmente de nível superior, tende a desaparecer com o tempo, considerando que muitas editoras formaram um ”grupo” especializado em livros digitais, fazendo convênios com faculdades, de maneira a facilitar ao aluno o acesso de livros digitalizados mediante uma senha fornecida pela escola. As escolas ganham oferecendo modernos recursos de pesquisas aos alunos; os alunos ganham pois não precisam tirar cópias ilegais de livros, ou comprar por preços acima de suas condições econômicas, ou ainda frequentar bibliotecas para pesquisas. As editoras ganham, pois recebem diretamente das faculdades conforme o número de acessos. 


Ler incentiva a difusão do conhecimento. Vários fatores aumentaram o número de publicações e de leitores: isolamento em casa, em razão do novo coronavírus; Clubes de Livros; Estante do Escritor; Estante Virtual; “sebos”, que antigamente só vendiam livros usados, passaram a vender seminovos e novos, agrupando-se em uma grande rede nacional; compras online; Mercado Livre; leitura digital; publicações independentes (livros sem selo de editora). O brasileiro está lendo mais, e novas publicações serão bem-vindas. É correto afirmar que as editoras e livrarias que pretendem sobreviver pós-pandemia terão que se reinventar. 


Os esclarecimentos feitos não são simples deduções, mas afirmações feitas com conhecimento de causa, pois vivo e convivo com o mercado livreiro há 36 anos, como sócio de uma pequena Editora (AB Editora). E pretendo continuar no mercado, com as adaptações necessárias, o que já está ocorrendo com a publicação de pequenas tiragens. Os indicativos permitem - concluir que haverá verdadeiro “céu de brigadeiro” para autores e leitores. Ao contrario, o tempo apresenta-se nublado com ameaça de tempestade para editoras e livrarias que não se adaptarem às tendências do mercado. Esta será realidade do mercado literário pós-pandemia.  

 

 

Ismar Estulano Garia  

(advogado, professor universitário    

conferencista,  escritor e editor)