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HERÓIS DA TERCEIRA GUERRA MUNDIAL


Quando foi indagado que armas seriam usadas na terceira guerra mundial, Albert Einstein respondeu que não saberia dizer como seria travada, mas afirmou que a quarta guerra mundial teria como armas paus, pedras, flechas e tacapes. A observação do famoso cientista tem como fundamento o que aconteceu ao terminar a segunda guerra mundial, quando veio a público os horrores dos campos de extermínio de judeus, as barbaridades ocorridas nos campos de batalhas e as consequências do bombardeamento atômico das cidades de Hiroshima e Nagasaki.

Guerras são conflitos armados entre dois ou mais países, ou entidades independentes, que acontecem por diferentes motivos, podendo ser citados desentendimentos religiosos, interesses políticos e econômicos, disputas territoriais e rivalidades étnicas. Guerras sempre existiram ao longo da historia, algumas sem registros detalhados, em razão de serem muito limitadas no tempo e no espaço, e outras tantas com apontamentos pormenorizados, retratando as crueldades ocorridas. Arqueólogos estudam vestígios de que o homem na pré-história já ia à guerra. Elas sempre se fizeram presentes na Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. A titulo de exemplos, indicando motivos, duração e vidas humanas ceifadas, cita-se: a) Guerras Greco-Persas (499-449 a.C.) – uma sequência de grandes batalhas da história grega. Foram iniciadas pela invasão da Grécia pelos persas e travadas em duas fases. As estimativas são imprecisas, por se tratar de hostilidades muito antigas; b) Guerras Púnicas (264-146 a.C.) – confronto entre romanos e cartaginenses pelo controle do Mar Mediterrâneo. Estima-se que entre 1 e 2 milhões de pessoas tenham morrido; c) Guerra dos Cem Anos (1337-1453) – um dos embates mais longos da história da humanidade, estendendo-se por 116 anos. Foi motivada pelas disputas de interesses entre duas dinastias. Especula-se que causou a morte de 2 a 3 milhões de pessoas; d) Guerra dos Trinta Ano (1618-1648) – enfrentamento causado pelas rivalidades religiosas que existiam na Europa da Idade Moderna. Morreram entre 5 e 8 milhões de pessoas; e) Guerras Napoleônicas (1803-1815) – conflito provocado pelo choque de interesses da França pós-revolução contra nações absolutistas. Estima-se que tenha resultado de 3 a 7 milhões de mortos; f) Rebelião Taiping (1850-1864) – guerra civil que aconteceu na China por questões políticas e religiosas. Presume-se que até 30 milhões de pessoas morreram em enfrentamentos; g) Guerra Civil Russa (1918-1921) – guerra iniciada com o intuito de derrubar os socialistas que tinham tomado o poder na Rússia. As mortes calculadas são de 10 milhões de pessoas; h) Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) – confronto iniciado pela invasão do território chinês pelo Japão no intuito de transformá-lo em uma colônia. Causou a morte de cerca de 20 milhões de pessoas.


Marcaram a humanidade e foram denominadas de Primeira Guerra Mundial (1914-1918) os conflitos motivados pelas rivalidades entre as potências europeias no começo do século XX, que causou a morte de 15 a 20 milhões de pessoas, e Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – hostilidade que dividiu o mundo em Eixo contra Aliados e provocou a morte de 60 a 70 milhões de pessoas. Conhecida como Grande Guerra ou Guerra das Guerras até o inicio da Segunda Guerra Mundial, a Primeira Guerra Mundial realmente foi de extensão global. Centrada na Europa, o embate envolveu as grandes potências de todo o mundo em duas alianças: Aliados x Impérios Centrais (Alemanha e Áustria-Hungria). Contou com o uso de novas tecnologias (aviões, armas químicas e U-boots/submarinos), gerando consequências profundas. Foi de uma estupidez indescritível, ocorrendo na maior parte em “lutas de trincheiras”, na tentativa de conquistar pequenos terrenos de barro e lama. Nenhuma outra guerra mudou o mapa da Europa de forma tão dramática. Quatro impérios desapareceram após o fim da contenda (Alemão, Austro-Hungaro, Otomano e Russo), assim como quatro dinastias e aristocracias que as apoiavam. O “Tratado de Versalhes”, no final da guerra, foi humilhante para os alemães, servindo de combustível para o surgimento dos nazistas e a Segunda Guerra Mundial. Esta sim, uma serie de confrontos que passaram para a historia como os mais sangrentos ocorridos, extrapolando o espaço da Europa e envolvendo 72 países, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Desencadeada por um aloprado e psicopata (Hitler), que canalizou os sentimentos dos alemães, pregando o predomínio de uma raça (arianos) e necessidade de espaço vital justificando o expansionismo. Foi a mais letal de todas as guerras, com a absurda e criminosa intenção de exterminar toda uma raça (judeus) e eliminar ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais. De um lado estavam Alemanha, Itália e Japão, contra o todos os países que se alinharam na represália, sob a liderança da Inglaterra, Estados Unidos, Rússia e França. A letalidade assombrosa contou com navios, submarinos, tanques, aviões, metralhadoras e canhões, encerrando com a detonação de bombas atômicas.

Terminada a Segunda Guerra Mundial ocorreu um longo período de recuperação das nações envolvidas. Foi criada a ONU (Organização das Nações Unidas) com o objetivo de estimular a cooperação global e evitar futuros conflitos. Surgiu a “Guerra Fria”, com dois blocos ideológicos rivais (capitalistas e comunistas). Os EUA e a Rússia se armaram para um eventual confronto, que não passou de ameaças recíprocas, apesar de espasmos esporádicos de “quase guerra”.

Então surgiu a 3a. Guerra Mundial com suas peculiaridades: vítimas – homens, mulheres e crianças; causadores/agressores - vírus de dimensões microscópicas, provocando uma doença apelidada de Covid-19. O inimigo invisível, agindo de maneira silenciosa, deixou todo mundo de joelhos. Os grandes países, tidos como líderes mundiais, apesar do arsenal existente não tinham com quem lutar. Inicialmente causou perplexidade e, na medida que expandia a pandemia, a conduta adotada foi inteiramente de defesa (isolamento social, usar máscaras e lavar as mãos com sabão ou usar álcool em gel). As controvérsias sobre o que fazer prejudicaram as tentativas de combate aos agressores. Uns poucos desinformados e sem noção da gravidade tentaram, sem sucesso, desacreditar tudo. Como consequência, os acontecimentos nefastos alastraram descontroladamente, provocando pesadelos horríveis. A economia mundial ficou em frangalhos e a fome mostrou sua cara. E os políticos? Bem, políticos são políticos, apenas políticos, nada mais do que políticos.

Na sucessão de trapalhadas começaram a surgir os heróis da guerra. Diferentes de todos conflitos anteriores, na Terceira Guerra Mundial o objetivo não era matar pessoas e sim salvar vidas. Ao contrário de mobilizar as forças armadas para enfrentar o inimigo invisível, foi mobilizada toda uma categoria: os profissionais da saúde. Não aconteceu de determinados nomes serem reconhecidos como heróis, mas todos que passaram a integrar a área de saúde na frente de combate: médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, farmacêuticos, dentistas, nutricionistas, psicólogos, faxineiros, motoristas. Enfim, todas pessoas que foram para linha de frente. Nos bastidores, trabalhando no silêncio de laboratórios, com justiça foram também reconhecidos como verdadeiros heróis os cientistas, pesquisadores e todos que ajudaram na busca para encontrar armas que pudessem enfrentar o inimigo, sejam preventivas (vacinas), sejam curativas (medicamentos). No espaço, a Terceira Guerra Mundial atingiu todo planeta; no tempo não se sabe, pois ainda não terminou. As vidas ceifadas pelo inimigo contam-se aos milhões e as vidas salvas pelos heróis alcança quantitativo de bilhões. As consequências da guerra ainda são imprevisíveis, mas é certo que irá perdurar por muito tempo. De qualquer forma, é inquestionável que cientistas, pesquisadores e todos profissionais aglutinados na área da saúde são, indubitavelmente, os Heróis da Terceira Guerra Mundial.




Ismar Estulano Garcia

(advogado, professor universitário

conferencista, escritor e editor)