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COMO ESCREVER UM LIVRO

Escrever livro não é fácil. Mas não é impossível. Trata-se de um trabalho semelhante a qualquer outra atividade laboral. Há uma jornada a ser percorrida até que seja colocado o ponto final na obra. Vários critérios devem ser seguidos. Inegavelmente a leitura de posts, orientando como escrever, é válida. Mas há que se ter cuidado, pois uma grande maioria são recados repetitivos, que nada esclarecem. A pesquisa sobre o tema é essencial, selecionando-se o que oferecer alguma contribuição para os autores iniciantes. Existem cursos

que orientam o neófito, de eficácia duvidosa.  

 

Quando escrevi meu primeiro livro (1970) não existia qualquer fonte de orientação. Hoje a realidade é outra, certamente melhor para quem tem a pretensão de escrever. As presentes orientações têm por objetivo fornecer informações que podem ser úteis. Aqui relato minha experiência pessoal. Nada mais são de que situações vividas na prática. O escritor não precisa ser profundo conhecedor, mas é preciso que tenha conhecimentos razoáveis da língua portuguesa. Na minha visão, após publicar 18 livros, para escrever um livro são percorridas diversas fases, conforme abordagens que seguem. 

 

1 a . Fase – Definição do gênero literário e titulo provisório do livro.  O gênero literário deve ser definido previamente. A produção intelectual pode ser romance, crônica, ensaio, poesia, contos, fabulas, poemas, ficção, biografia, livro técnico e didático, etc. Esta primeira fase não oferece maiores dificuldades, pois o pretenso autor já terá definido sobre o que escrever. Assim como existe dom para esporte, cantar, representar, etc., também existe dom para escrever. Nem todos nascem com dom de escritor, razão de exigir maior disciplina para escrever um livro. Imaginação, criação, determinismo, disciplina e inspiração devem estar presentes em qualquer tentativa de produção literária. Mas algumas características são próprias de cada gênero.  Como exemplos: não será poeta quem quer fazer poesia, e sim que tem inspiração para ser poeta; não será ficcionista quem quer escrever sobre ficção, e sim que tiver imaginação. O titulo do livro não oferece qualquer dificuldade, pois já haverá um para o livro a ser escrito. Se não tiver, adote um nome provisório. O titulo poderá ser mudado varias vezes, mas o que importa é que seja provisório. Pode até ser o titulo definitivo, se assim entender o autor quando terminar de escrever, porquanto um bom titulo poderá aparecer durante a elaboração do livro. 

 

2 a . Fase – Escolha um tema. Todo livro deve ter inicio meio e fim, sob pena de ser apenas um amontoado de palavras. Qualquer produção literária deve ter um tema, ou historia, que deve ser bem planejada. A organização do conteúdo exige conhecimento de teoria literária, permitindo que escritor noção geral do começo, meio e fim. 

 

3 a . Fase – Elaboração do sumário. Em geral sumário e índice são palavras sinônimas, com o mesmo significado de resumo, sinopse e síntese. Os livros mais antigos sempre usavam o termo índice. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) procurou regulamentar o assunto, esclarecendo que sumário será a enumeração das principais divisões, seções e outras partes de um livro, na mesma ordem em que a matéria nele se sucede. Desta forma, atualmente há concordância que sumário é a listagem com os assuntos de um livro separados pelos números de paginas que apresenta o seu conteúdo, procurando diferenciar de índice cronológico e índice alfabético remissivo. A melhor orientação que se pode dar a um escritor iniciante será elaborar um sumário provisório, com toda a divisão do livro que pretende escrever. Planejar o seu livro dá mais segurança na hora de escrever. O sumário contém o planejamento e estrutura do livro. É claro que, durante o desenvolvimento do conteúdo, o sumário pode e é recomendável ser alterado, de acordo com a evolução do que se escreve. Pode ser bastante sintético, como nos romances, ou mais analítico, como nos livros técnicos. Existem várias maneiras de dividir o sumário: títulos, capítulos, subtítulos, seções, etc. Na dúvida, recomenda-se ao interessado consultar os sumários de uns 10 livros de sua preferência, e adotar a divisão que julgar mais adequada. Um sumário bem elaborado significa planejamento e sistematização.  

 

4 a . Fase – Defina a extensão do conteúdo. O conteúdo pode ser dilatado ou reduzido, a critério do autor. Não é correto estabelecer que irá escrever tudo em 100 ou 500 páginas (papel A-4, normalmente em letras tamanho 14, para facilitar a releitura constante). O razoável será entre 150 e 300 páginas, alterando quando julgar conveniente.  

 

5 a . Fase – Leia bastante sobre o assunto que quer escrever. É essencial conhecer tudo sobre que quer escrever. Para tanto, o iniciante deverá ter em mãos livros e qualquer tipo de publicação referente ao tema escolhido. Se possível, ver mais de uma vez filmes sobre o assunto. Em tudo que consultar deverá anotar palavras chaves e comentários que entender pertinentes. Tais anotações serão uteis no futuro. 

 

6 a . Fase – escreva, escreva e escreva. Escrever um livro do inicio ao fim exige muito esforço e dedicação. É preciso determinação para dar início e continuidade ao livro. O início e o fim da obra devem ser impactantes.  Começar a escrever pode ser mais trabalhoso do que publicar um livro concluído. Essa dificuldade se deve ao alto nível de ansiedade dos escritores iniciantes, que começam o seu trabalho focando a atenção em todo o processo de escrita em vez de adotar um passo de cada vez. Não seja sonhador ou pessimista, mas apenas realista. É necessário ter comprometimento com a tarefa e fixar uma rotina a ser seguida, procurando alcançar um nível mínimo de produtividade. Quanto mais escrever, mais ideias novas surgirão. Seja determinado e disciplinado: estabeleça um número de palavras, ou páginas, que irá escrever todo dia, em uma semana ou em um mês. Recursos visuais são excelentes para tornar a leitura mais suave. Use linguagem simples, evitando redação rebuscada. Use sinônimos, evitando a repetição de uma mesma palavra. O bom uso dos sinais de pontuação permitem cadência na leitura. Ao escrever, pense no publico alvo. É necessário que a narrativa seja endereçada ao publico alvo, despertando a curiosidade do leitor. Com o computador fica mais fácil escrever, parar e continuar. Não haverá necessidade de rascunho, procedendo a revisão na medida que vai escrevendo, o que significa evolução do estilo. Quando julgar necessário tire férias, descansando, dormindo, vendo TV, saindo com amigos, praticando atividades físicas, viajando, etc. Isso por algum tempo, não muito longo porque poderá abandonar a tarefa iniciada. Construa os personagens do enredo detalhando seus aspectos físicos e psíquicos. Os personagens devem extravasar verdade, para chamar atenção dos leitores. Descreva de forma inteligente cenários e personagens, para que o leitor mentalize lugar e pessoas. Existem os momentos de criatividade: quando tomando banho; momentos antes de adormecer e ao acordar; quando estiver praticando caminhada; tomando sol; pescando etc. Sempre que tiver uma ideia, anote em palavras chaves. Sobre o melhor momento de escrever, depende de cada pessoa: uns preferem a noite e outros em certos horários do dia. No meu caso sempre preferi as madrugadas, em razão do silêncio e o corpo e mente descansados. Tempo é questão de prioridade. Alegar falta de tempo para escrever não é justificava. Especificamente no período da pandemia, existiu excesso de tempo para ler e escrever alguma coisa. Pode não ser uma boa ideia tentar escrever de modo continuo, do início ao fim: um bom sumário permite que o escritor preencha, de forma descontinua, o conteúdo completo. Lembrar que, cientificamente, já é aceito que o cérebro não dorme. Se a

pessoa adormece pensando em um problema, o cérebro continuará acordado e trabalhando. Ao despertar a pessoa poderá ter a solução da sua dúvida. A sensação de dever cumprido ao colocar um ponto no livro é indescritível. 

 

7 a . Fase – Escolha um colaborador. Colaborador não significa coautor ou parceiro na produção da obra. Deve ser um companheiro(a), pessoa que saiba o que você está escrevendo. Pode ser esposa(o), filho(a), namorado(a), amigo(a), etc. Não deve ser um profissional, e sim uma pessoa com quem poderá discutir duvidas, trocar ideias e fazer pequenas revisões de partes já produzidas. O colaborador não terá função de elogiar, e sim criticar, identificando pontos fracos no livro e que possam ser melhorados. Muitos escritores pulam essa fase, fazendo eles próprios o trabalho. 

 

8 a . Fase – Revisão.  O autor deverá efetuar revisões durante toda a produção do conteúdo. Quando concluir, deverá ainda, fazer várias revisões. Enxugue o texto, procurando dizer mais com menos palavras, buscando sempre melhorar frases que ficaram confusas. Não traduz realidade ligar computador e redigir um texto perfeito. É necessária revisão. Será um bom critério ler e reler diariamente pelo menos parte do escrito, nem que seja para mudar uma palavra por outra sinônima. Pedir sempre ao colaborador, ou outra pessoa, para ler e revisar. Existem aplicativos que realizam a revisão gramatical e concordância verbal, não ficando dispensado um revisor. Somente depois da revisão do autor é que deverá ser procurado um revisor competente, mesmo que não seja profissional. Um freelancer poderá sair mais barato. A revisão por um profissional sempre será útil. As revisões podem ser superficiais, razoáveis e profundas. A revisão profunda exige muito conhecimento da língua portuguesas, realizadas principalmente por detentores de cursos de letras. A revisão por profissionais fica caríssima. Entre os profissionais de jornalismo encontram-se excelentes revisores.


Vários são os motivos que levam alguém a escrever um livro. Se o motivo for financeiro é melhor esquecer. No Brasil é quase impossível viver de direitos autorais. O único nome que destaca exclusivamente como escritor é Paulo Coelho, com inúmeras obras publicadas. Alguns escritores até que se defendem, obtendo uma receita complementar. O correto será ter outra profissão, ou atividade, que proporcione receita necessária para o dia a dia. É elogiável a vontade de deixar alguma produção literária para a posteridade. Se a motivação for exclusivamente vaidade, também não funciona. Se o motivo for idealismo, ou autorrealização, seja bem vindo. Concluído e revisado o livro, a etapa seguinte será a publicação, que pode oferecer mais dificuldades do que escrever. De qualquer forma, só pode ser publicado aquilo que já está escrito, razão pela qual são úteis informações sobre como escrever um livro. 

 

 


Ismar Estulano Garcia 

(advogado, professor universitário 

conferencista, escritor e editor)